Agenda NEXUS chega ao fim com contributo da Universidade de Évora para a modernização, descarbonização e sustentabilidade do setor marítimo-portuário

Ilustração do item

A Agenda Mobilizadora NEXUS, apoiada pelo PRR, concluiu, no final de junho, o desenvolvimento de todos os Produtos, Processos ou Serviços (PPS) previstos, assinalando mais uma etapa na transformação digital e tecnológica do setor portuário e logístico nacional. Ao longo dos 4 anos a equipa multidisciplinar da Universidade de Évora (UÉ), com a coordenação científica de Teresa Batista, professora e investigadora principal da UÉ, composta por 25 investigadores de seis países, teve o desafio de trabalhar em três Work Packages distintos da Agenda NEXUS, no âmbito de Open Data, Deteção Remota e GIS, Inteligência Artificial (Deep Learning), Descarbonização, Economia Circular e Modelação Energética, para responder aos desafios urgentes da sustentabilidade ambiental e da transição verde e digital nos portos marítimos.

O encerramento da Agenda foi assinalado durante a NEXUS International Conference – DGTMP 2026, iniciativa organizada pela Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS), pelo Instituto Politécnico de Setúbal e coorganizada pela Universidade de Évora (UÉ), onde foram apresentados os principais resultados alcançados pelo consórcio.

“O balanço é extremamente positivo, de elevado impacto científico e de grande utilidade transformadora para o setor marítimo-portuário nacional e internacional”, refere a coordenação da equipa da UÉ ao fazer o balanço final do projeto. “O percurso permitiu passar da investigação científica e diagnóstico teórico à aplicação prática no ecossistema do Porto de Sines e na Zona Económica Exclusiva (ZEE) continental portuguesa. Foi demonstrado como o conhecimento científico avançado pode dotar as administrações portuárias e os decisores de ferramentas rigorosas para a tomada de decisão em tempo real, posicionando a Universidade de Évora como um centro de referência na interface entre logística, território e ambiente”, explica. 

 

O projeto produziu 72 outputs científicos e tecnológicos

Mais do que produzir conhecimento científico, a Agenda NEXUS procurou transferi-lo para a sociedade e para o tecido empresarial.

Na prática o projeto regista já 72 outputs: 30 artigos em revistas científicas Q1 e Q2, 1 E-book, 14 artigos e 5 posters em conference proceedings, organização de 4 workshops e de 1 conferência internacional, 5 teses de mestrado/doutoramento, 4 benchmark visits a portos marítimos internacionais e 8 deliverables, que “no seu conjunto potenciam a transformação de ciência em valor real para a sociedade e para o tecido económico”, sublinha a equipa coordenada por Teresa Batista. 

São exemplo disso algumas das ferramentas tecnológicas operacionais criadas, como o ecossistema Port of Sines Nexus Sensing, composto por sensores meteorológicos e de qualidade do ar e dashboard em tempo real, em conjunto com o desenvolvimento da plataforma de inteligência marítima NEREUS, que dota o porto de capacidade de monitorização ambiental contínua. 

Através dos artigos publicados em revistas científicas de elevado impacto (Sustainability, Remote Sensing, Energies, Designs, Environmental, Case Studies on Transport Policy) “procurou-se apoiar o desenvolvimento de políticas públicas, regulação e práticas sustentáveis nas áreas portuárias”, aponta a coordenação, exemplificando: “identificaram-se, por exemplo, os impactos da ausência de áreas de controlo de emissões no Atlântico Nordeste, fornecendo as bases científicas para a criação de um corredor regulatório harmonizado entre o Mediterrâneo e os Mares do Norte e Báltico, mas também foram sistematizadas medidas de transição energética em portos para diminuir a sua pegada carbónica”. 

“Paralelamente procurámos disseminar o conhecimento através de formação avançada, quer no âmbito da NEXUS Academy, da qual é exemplo a microcredencial internacional Carbon Footprint in Maritime Ports quer através de workshops sobre Análise Bibliometrica e LaTeX, elevando a qualificação dos quadros técnicos e académicos do setor”, salienta a equipa coordenada por Teresa Batista. 

 

A “Mudança de Paradigma na Descarbonização Portuária” foi uma das principais conquistas

Do ponto de vista da investigação e inovação foram alcançadas algumas conquistas científicas e tecnológicas importantes como a “Mudança de Paradigma na Descarbonização Portuária”, destaca a equipa, explicando que “ficou demonstrado cientificamente que focar os esforços de descarbonização apenas na frota terrestre e edifícios é insuficiente. A grande alavanca de sustentabilidade está na integração com os navios no cais (através de Onshore Power Supply - OPS e eletrificação) e na transição para combustíveis limpos (Hidrogénio, Metanol, Amónia).  

Outra das conquistas salientadas foram os avanços no “Processamento de Dados de Satélite com IA”, ou seja, a aplicação bem-sucedida de algoritmos de Deep Learning para superar as limitações de resolução do satélite Sentinel-5P representa uma inovação metodológica de fronteira na deteção remota da poluição atmosférica marítima.  

A equipa destaca também a “Abordagem Holística da Paisagem (Landscape Approach)”, como outra conquista, esclarecendo que “a integração inédita da gestão florestal territorial e serviços de ecossistema na estratégia de neutralidade carbónica de um porto marítimo como Sines”. 

Por fim, como conquistas registadas apontam-se ainda os “Estudos Tecnológicos de Eletrificação e Retrofitting”, com a demonstração de que a eletrificação de um navio de contentores de 14.000 TEU via OPS reduz até 160 tonCO2 por cada permanência de 48 horas no porto (~4.000 tonCO2/ano por navio). 

 

A aproximação entre a academia e o tecido empresarial é “vital”

Para a coordenadora Teresa Batista é “vital a aproximação entre a academia e o tecido empresarial porque a transição verde e digital do setor marítimo e logístico não pode ser feita com base em suposições ou soluções pré-formatadas”. 

“A Academia oferece isenção científica, rigor metodológico, acesso a tecnologia de vanguarda (satélites, IA, modelação complexa) e capacidade de antecipar tendências regulatórias internacionais. Por sua vez, o Tecido Empresarial, como Administrações Portuárias e Operadores oferece contexto operacional real, desafios concretos do mercado, dados históricos de operação e capacidade de implementação em escala”, explica a responsável, afiançando que “sem esta ligação, a investigação arrisca-se a ficar fechada em si mesma e as empresas arriscam-se a fazer investimentos milionários em tecnologias ineficientes”. 

“O projeto NEXUS provou que, quando a universidade e a indústria trabalham juntas, é possível criar ferramentas como o Bee2CleanEnergy ou os modelos de previsão de chegada de navios, que geram poupança económica direta e redução efetiva de emissões”, afiança a coordenadora, salientando que “reforçou-se a importância de um Protocolo Institucional de Cooperação entre a APS (Administração dos Portos de Sines e do Algarve) e a Universidade de Évora”. 

 

O encerramento da Agenda NEXUS funciona como rampa de lançamento para uma nova fase

O encerramento da Agenda NEXUS marca a conclusão de um projeto, mas funciona essencialmente como a rampa de lançamento para uma nova fase de aplicação e expansão. Segundo a equipa da UÉ, o trabalho continuará através da exploração do equipamento instalado e operacionalização plena da rede de sensores de qualidade do ar, estação meteorológica e drone na monitorização em tempo real (Port of Sines Nexus Sensing / Plataforma NEREUS). 

“Contamos também continuar a expandir a investigação e os estudos até aqui realizados, com a publicação de mais artigos científicos até ao fim deste ano. Pretendemos conquistar mais projetos Internacionais, por via de candidaturas a novos programas europeus (como o Horizon Europe ou outros) partindo das metodologias e redes de colaboração criadas durante a Agenda NEXUS”, afiança. 

Desafiada a resumir a Agenda NEXUS numa única ideia, a equipa da UÉ sintetiza: A sustentabilidade e descarbonização dos portos do futuro não se constroem apenas nos cais, mas na convergência entre o oceano, o céu e o território: exigem dados em tempo real, transição para energias limpas e uma aliança indissociável entre a Ciência, a Natureza e as Empresa”.

Liderada pela Administração dos Portos de Sines e do Algarve, a Agenda NEXUS reuniu, no total, 35 entidades em torno do desenvolvimento de soluções inovadoras orientadas para a digitalização, descarbonização e modernização da cadeia logística associada ao Porto de Sines.  Segundo a empresa líder da Agenda, o projeto ultrapassou os objetivos inicialmente contratualizados, com a entrega de mais três Produtos, Processos ou Serviços além dos previstos.

Publicado em 06.08.2026