Universidade de Évora atribui Doutoramento Honoris Causa a Maria João Pires
A Universidade de Évora (UÉ) atribuiu o Doutoramento Honoris Causa a Maria João Pires, unanimemente reconhecida como uma das mais notáveis pianistas da sua geração e uma personalidade que transformou a música numa forma rara de escuta, de exigência, de humanidade e de responsabilidade. A cerimónia realizou-se neste dia 27 de maio, na Sala dos Actos do Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora.
A cerimónia solene iniciou-se com o discurso do Reitor da UÉ, António Candeias, que começou por dizer que a Universidade de Évora ao conferir o título de Doutora Honoris Causa a Maria João Pires “presta homenagem não apenas a uma das maiores pianistas do nosso tempo, mas a uma personalidade que transformou a música numa forma rara de escuta, de exigência, de humanidade e de responsabilidade”.
“Num tempo frequentemente marcado pela aceleração, pelo ruído, pela dispersão e pela superficialidade, Maria João Pires recorda-nos algo de essencial: que a verdadeira criação – em qualquer área – exige silêncio, atenção, profundidade e tempo. Vagar”, afirmou o Reitor da UÉ, sublinhando que na “sua arte encontramos pensamento, interioridade e uma característica cada vez menos comum nos nossos tempos: verdade”.
Recordando a impressionante trajetória e o reconhecimento internacional de Maria João Pires, António Candeias considerou que “o que verdadeiramente impressiona é a coerência humana da sua relação com a música. Porque Maria João Pires nunca separou a excelência artística da responsabilidade ética”. E “talvez seja precisamente essa coerência que hoje a Universidade de Évora deseja reconhecer, porque uma universidade deve saber distinguir não apenas o talento, mas a forma como esse talento é colocado ao serviço dos outros”, concluiu.
O Reitor evidenciou, em seguida, os projetos pedagógicos e comunitários que a pianista criou, assim como o trabalho desenvolvido com jovens músicos, na defesa de modelos de aprendizagem assentes na escuta, na cooperação e na partilha, na recusa de uma cultura fundada exclusivamente na competição. “Ao longo dos anos, Maria João Pires insistiu numa ideia profundamente importante para o nosso tempo: a de que a educação artística não pode ser um luxo reservado a alguns. A música, a arte, a cultura não são um adorno. Não podem ser um privilégio social. São uma forma de construção humana, de relação. Uma maneira de compreender o mundo e a nós próprios.”
E continuou, “todas essas ideias têm uma enorme afinidade com aquilo que defendemos para a Universidade de Évora. Defendemos uma universidade que forme pessoas inteiras e íntegras – capazes de pensar criticamente, de dialogar com quem não pensa como nós, de criar e de assumir responsabilidade perante os outros – e não apenas uma instituição dedicada à acumulação de informação”.
“Hoje, ao acolher Maria João Pires na comunidade da Universidade de Évora, afirmamos precisamente isso. A sua visão da arte, da educação e da condição humana pertence plenamente ao horizonte de valores que queremos afirmar”, sublinhou António Candeias, acrescentando que “a Universidade de Évora deseja hoje prestar homenagem à ética da atenção, da exigência e da verdade”, personificadas em Maria João Pires.
Dirigindo-se em especial aos estudantes, o Reitor da UÉ fez questão de sublinhar que “o percurso de Maria João Pires ensina-nos a importância do rigor, da escuta, da atenção ao detalhe, da paciência e da profundidade. Ensina-nos que o verdadeiro talento nunca dispensa trabalho e que a grandeza artística não precisa de arrogância”.
“Hoje celebramos uma artista extraordinária, mas celebramos também uma ideia de cultura, que é também uma ideia de educação e uma ideia de universidade. Celebramos a convicção de que o conhecimento e a criação artística possuem uma responsabilidade pública, e de que uma universidade deve permanecer um espaço de liberdade crítica, de diálogo e de exigência ética. Celebramos igualmente a ideia de que o futuro não se constrói apenas com tecnologia e eficiência. O futuro precisa de sensibilidade, de imaginação, de memória. Enfim, de cultura”, afirmou António Candeias.
Por fim, dirigindo-se a Maria João Pires, o Reitor afirmou que “ Universidade de Évora sente hoje uma profunda honra em acolhê-la nesta comunidade académica. Receba este Doutoramento Honoris Causa como expressão da nossa admiração pela artista excecional que é. Mas receba-o também como reconhecimento da dimensão humana, ética e pedagógica do seu percurso”. “A sua música ajudou-nos a escutar melhor. E talvez essa seja uma das mais altas formas de serviço público que uma artista pode oferecer ao seu tempo”, concluiu António Candeias.
Após um momento musical, seguiu-se a Laudatio, proferida por Ana Telles, Professora do Departamento de Música da Escola de Artes da UÉ, também pianista, que começou por expressar a emoção ao “homenagear Maria João Pires”, confessando que as interpretações musicais da pianista “contribuíram em muito para que o piano viesse a tornar-se o meio mais eficaz de que disponho para comunicar comigo mesma e com o mundo que me rodeia”.
A antiga Vice-Reitora destacou “a personalidade completa e multifacetada” de Maria João Pires que se evidenciou “ao longo de mais de sete décadas de carreira, como uma das mais notáveis e sensíveis pianistas do seu tempo”.
“Em 1970, após ter sido premiada no Concurso Internacional Comemorativo do Bicentenário de Beethoven, em Bruxelas, Maria João Pires encetou uma carreira fulgurante, que a levou aos maiores palcos de todo o mundo, incluindo o Carnegie Hall de Nova Iorque, o Royal Festival Hall de Londres, a Salle Pleyel de Paris, e o Musikverein de Viena, sempre com aclamação unânime da crítica e do público”, salientou Ana Telles.
“Felizmente, nos anos mais recentes, Maria João Pires tem podido desenvolver mais e mais a sua atividade pedagógica”, destacou Ana Telles, sublinhando a sua “forma de contestação discreta aos formatos vigentes: aos que imaginam que só extraordinários pianistas podem aceder às aulas de Maria João Pires, ela responde dando aulas a amadores de música; aos que acreditam ser impossível lecionar música à distância, ela responde com aulas online; aos que a convidam para dar masterclasses, ela recusa esse formato, propondo antes encontros de troca de conhecimentos entre ela própria e os privilegiados estudantes com os quais, recentemente, tem generosamente partilhado preciosos momentos, incluindo aqui mesmo, na Universidade de Évora”.
Ana Telles caracterizou ainda a “arte” de Maria João Pires como: “verdadeira como só a mais aprofundada busca interior poderia gerar; depurada, como só a profundidade da reflexão de uma vida lograria alcançar; despojada, como a sua desarmante simplicidade... Porque transmite movimento e projecção, como a sua mente irrequieta e ávida de futuro; porque é fundamentalmente livre, como a Maria João tem sido, ao piano e na vida. Em suma, porque é essência, pois que da sua essência parte e – por isso mesmo – toca a essência de cada um que tem o privilégio de a ouvir, sem jamais se perder nos complexos meandros da superficialidade sem raiz e sem propósito”.
Após a Laudatio, seguiu-se o momento da imposição das Insígnias Doutorais, que foi longa e profundamente aplaudido.
Depois, a nova Doutora fez o seu discurso, tendo começado por descrever que o seu “trabalho foi incessantemente feito sobre a técnica instrumental através do corpo”. Destacando que “a música nos toca de forma tão profunda”, Maria João Pires explicou que “a partitura é apenas informação potenciada. Só a energia física, emocional, temporal e interpretativa do músico a transformam em experiência viva. Essa energia deveria ser cultivada, alimentada e, sobretudo, guiada, gerida”.
“As universidades e as escolas continuarão, espero, com desesperada fé, a ser fontes preciosas de informação, de estudo e de apoio. A transmissão e as formas de energia viva terão de se encontrar dentro desse movimento humano”, referiu.
“Ensinar e ser ensinado, aprender e transmitir é, sem dúvida, uma das experiências humanas mais ricas que nos é dado viver”, afiançou, alertando que “colocar em causa essa experiência e tentar substituições técnicas seria, julgo, a destruição combativa da escola, da universidade, da pedagogia viva e da transmissão, no seu sentido mais profundo. A imaginação, a procura e a descoberta em campo aberto são fenómenos da pedagogia não só insubstituíveis, mas geradores de todas as grandes obras da humanidade”.
Chamando a atenção para “o crescimento das inteligências artificiais generativas e os enormes interesses económicos que os acompanham”, Maria João Pires alertou para “o risco que a concentração de poder tecnológico e económico venha a enfraquecer princípios fundamentais das democracias, a liberdade de expressão, a diversidade de pensamento e o direito à escolha. E talvez mais subtilmente, o direito de cada indivíduo a desenvolver e afirmar o próprio talento, sem condicionamento e sem formatação. Na realidade, é algo que já está a acontecer”.
“Essa influência começa também a manifestar-se na forma como muitos aspirantes artistas se afastam com uma rapidez preocupante da realidade profunda da criação, da verdade e da dignidade. Não se trata de recusar a tecnologia nem do seu avanço. Trata-se de não abdicar da consciência, a presença consciente de dar-nos a possibilidade de continuar a desenvolver tecnologia de formas mais positivas”, apelou a reconhecida artista.
Por fim, Maria João Pires expressou a sua “mais sincera gratidão”. “Recebo esta distinção não apenas como um reconhecimento do percurso realizado, mas também como uma responsabilidade perante a cultura, o pensamento e a consciência humana”, concluiu Maria João Pires.
Os momentos musicais da cerimónia estiveram a cargo da Escola de Artes da Universidade de Évora e do Coro da Universidade de Évora.
Após a cerimónia solene, decorreu no Claustro Maior, a sessão de cumprimentos, que contou com inúmeras individualidades nacionais e regionais, assim como muitos estudantes e admiradores de Maria João Pires.
Nascida em Lisboa em 1944, Maria João Pires começou a tocar piano sozinha aos três anos de idade, dando o seu primeiro concerto público aos 4 anos.
Entre 1953 e 1960, Maria João Pires estudou no Conservatório de Lisboa com o professor Campos Coelho e Francine Benoit. Aos 17 anos, recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar na Alemanha, primeiro na Musikhoschule de Munique com Rosl Schmid e depois em Hanôver com Karl Engel. Este último a quem Maria João Pires atribui o mérito de a ter ajudado a situar a música no contexto da vida.
A partir dos anos 80, começa uma carreira internacional. Incentivada por Claudio Abbado, toca pelo mundo inteiro com grandes orquestras e chefes de grande renome.
Grava para a Erato durante quinze anos e para a Deutsche Grammophon durante vinte e cinco anos.
Têm-se dedicado, desde a década de 1970, a refletir sobre a influência da arte na vida, na comunidade e na educação, tentando descobrir como estabelecer esta forma de pensar na sociedade, com vista a incentivar indivíduos e culturas a respeitar e partilhar ideias.
Em 1999 criou Belgais – Centro para o Estudo das Artes, onde desenvolveu coros para crianças de meios rurais e desfavorecidos; concertos experimentais e workshops para artistas e amadores. Maria João Pires complementou esta abordagem com projetos adicionais em Salamanca, Bélgica, aldeias SOS no Burundi e no Brasil.
Todos estes projetos visavam criar respeito mútuo, respeito por todas as culturas, bem como pelo meio ambiente, pela natureza e pela vida, abrangendo a Terra e tudo o que nos rodeia.
CONTEÚDO MULTIMÉDIA - Maria João Pires em discurso direto, numa partilha profunda, intimista e reveladora de uma das mais notáveis pianistas da sua geração no contexto do Doutoramento Honoris Causa atribuído pela Universidade de Évora.
Veja e escute na íntegra: https://youtu.be/FQzNzTDL9_Q?si=TW3_OZVQnTKlQVLA
