Universidade de Évora promove reflexão internacional sobre igualdade de género no seminário «Mulheres em Foco»

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A Universidade de Évora dinamizou, nos dias 17 e 18 de março de 2026, o seminário internacional “Mulheres em Foco: da narrativa à representação na linguagem, arte, património e mundo digital”, uma iniciativa que reuniu a comunidade académica e especialistas nacionais e internacionais em torno dos desafios contemporâneos da igualdade de género.

Integrado nas comemorações do Mês da Mulher, o seminário foi organizado no âmbito do projeto “Ponte Cultural: Promover a Inclusão Cultural para Conseguir uma Sociedade mais Democrática”– BRIDGES (PLANAPP/ CIDEHUS), em articulação com o Gabinete para a Igualdade de Género e Inclusão da Universidade de Évora (GabIgual-UÉVORA), e destacou-se pela sua abordagem interdisciplinar, cruzando contributos das áreas da linguagem, história, artes, património e tecnologias digitais.

A primeira sessão decorreu no Colégio do Espírito Santo, onde foram apresentadas diversas iniciativas desenvolvidas pela Universidade de Évora no domínio da igualdade de género. O programa incluiu uma palestra dedicada à linguagem inclusiva, seguida de uma mesa-redonda com dirigentes da instituição, centrada na definição de estratégias de comunicação mais inclusivas e alinhadas com as orientações europeias.

De acordo com María Zozaya, investigadora do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora, no qual está sediado o Projeto BRIDGES (PLANAPP/ CIDEHUS), e coorganizadora do seminário, esta abordagem resulta da própria génese do projeto BRIDGES pois “trata-se de uma iniciativa que procura utilizar o poder transformador da cultura para promover uma sociedade mais democrática, recorrendo a múltiplas linguagens e formas de expressão”.

A investigadora recorda que esta perspetiva tem vindo a ser desenvolvida ao longo de vários anos, nomeadamente através de iniciativas como o festival Heritales, que explora diferentes suportes — do cinema aos videojogos — para promover a reflexão sobre património e sociedade. “A articulação entre diferentes áreas permite abordar problemas complexos de forma mais criativa e eficaz, envolvendo o público não apenas ao nível do conhecimento, mas também da experiência e da reflexão crítica”, sublinha.

Para Célia Peralta, responsável pelo GabIgual-UÉVORA, este tipo de iniciativas assume um papel essencial na consolidação de uma cultura institucional mais equitativa, “em primeira instância, importa não deixar que as questões da igualdade caiam no esquecimento. A igualdade de género é um processo de conquista inacabado, que exige debate contínuo e reflexão crítica sobre as desigualdades que persistem”.

Célia Peralta sublinha ainda que o seminário constitui uma oportunidade relevante para a partilha de experiências e boas práticas pois “permite conhecer políticas e iniciativas que já demonstraram resultados noutros contextos, facilitando a adaptação de soluções testadas à realidade da nossa organização”. Neste sentido, acrescenta, “eventos desta natureza contribuem também para sinalizar, interna e externamente, que a Universidade valoriza a igualdade, com impacto positivo na cultura organizacional e na reputação institucional”.

Um dos eixos centrais do encontro foi a necessidade de traduzir compromissos institucionais em medidas concretas. “Transformar políticas em práticas reais significa tornar efetivo o que está definido no papel, através de ações concretas e resultados visíveis”, explicou Célia Peralta. Como exemplo, destacou a implementação de instrumentos como o código para a prevenção e combate ao assédio, a criação de canais de denúncia e o desenvolvimento de ações de formação, que materializam os objetivos definidos no Plano para a Igualdade de Género da Universidade de Évora.

A sessão do dia 18 decorreu em formato híbrido, com conferências online durante a manhã e um momento presencial ao final da tarde na Sociedade União Eborense, em Évora. O programa integrou comunicações científicas, debates e atividades culturais, evidenciando uma estratégia deliberadamente interdisciplinar.

A reflexão sobre a linguagem inclusiva assumiu particular destaque ao longo do seminário. Para María Zozaya, investigadora do Projeto BRIDGES (PLANAPP/ CIDEHUS-UÉVORA) e coorganizadora do seminário, “a linguagem não é neutra: ela constrói e configura a realidade que percebemos”. A investigadora alerta para a persistência de estruturas linguísticas que contribuem para a invisibilização das mulheres, tanto no presente como na interpretação do passado, “em muitos casos, a utilização sistemática do masculino dificulta a identificação da presença feminina, condicionando a forma como a história é escrita e compreendida”.

Neste contexto, foi apresentado um manifesto a favor da linguagem inclusiva, que visa promover a igualdade de visibilidade e simetria entre mulheres e homens nos documentos e práticas institucionais. Segundo María Zozaya, “o manifesto pretende ser um ponto de partida para a ação, contribuindo para alinhar as práticas institucionais com as recomendações de organismos internacionais e com os princípios democráticos de igualdade”.

O seminário abordou igualmente os desafios emergentes no contexto digital, nomeadamente o aumento da visibilidade de discursos discriminatórios nas plataformas online. Como referiu Célia Peralta, “a reemergência de discursos machistas, misóginos e racistas, amplificados pelos meios digitais, evidencia que a promoção da igualdade continua a ser um processo inacabado, exigindo novas formas de intervenção e consciência crítica”.

Outro dos aspetos destacados foi o papel da comunidade académica na construção de uma universidade mais inclusiva. “Uma universidade mais inclusiva depende do compromisso coletivo de estudantes, docentes e investigadores”, afirmou Célia Peralta, sublinhando a importância da escuta ativa, da cooperação e da produção de conhecimento orientado para a transformação social.

Ao reunir contributos de diferentes áreas científicas e artísticas, o seminário “Mulheres em Foco” afirmou-se como um espaço de partilha, debate e construção de propostas concretas, evidenciando o papel da Universidade de Évora na promoção da igualdade de género, da inovação social e da valorização do conhecimento interdisciplinar.

Publicado em 27.03.2026