Universidade de Évora assinala Dia Mundial da Obesidade com reflexão multidisciplinar
A Universidade de Évora assinalou o Dia Mundial da Obesidade com a jornada “Repensar a Obesidade no Século XXI: Clínica, Comportamento, Ambiente e Inovação”, que decorreu no dia 4 de março, no Palácio D. Manuel, reunindo um elevado número de participantes, entre estudantes, investigadores e profissionais de saúde. A iniciativa foi organizada pela Escola de Saúde e Desenvolvimento Humano e pelo Departamento de Ciências Médicas e da Saúde, com o objetivo de promover a reflexão e a partilha de conhecimento sobre um dos mais relevantes desafios de saúde pública da atualidade.
Na sessão de abertura, João Nabais, Vice-Reitor da Universidade de Évora, destacou que a obesidade representa atualmente um grande desafio de saúde pública, sublinhando que cerca de um em cada quatro portugueses apresenta excesso de peso. Na sua intervenção, salientou ainda a importância de combater a discriminação e a culpabilização associadas a esta condição, defendendo que a abordagem à obesidade deve considerar diferentes dimensões do problema e promover estilos de vida saudáveis. Acrescentou também que a natureza multidisciplinar da Universidade de Évora constitui um contexto privilegiado para o desenvolvimento de investigação e inovação nesta área.
Por sua vez, Armando Raimundo, Diretor da Escola de Saúde e Desenvolvimento Humano, sublinhou a importância de assinalar esta data através da promoção de conhecimento científico e da sensibilização da sociedade para os desafios associados à obesidade. O responsável destacou igualmente o entusiasmo de ver uma forte presença de estudantes na iniciativa, reforçando que os problemas de saúde contemporâneos exigem respostas multidisciplinares e colaboração entre diferentes áreas do saber.
Ramiro Pastorinho, Diretor do Departamento de Ciências Médicas e da Saúde da UÉVORA, destacou, por sua vez, o papel da academia na promoção da prevenção, sublinhando que esta passa necessariamente pela produção e disseminação de conhecimento científico rigoroso. Já Teresa Engana, Chefe da Divisão de Juventude e Desporto da Câmara Municipal de Évora, realçou que a obesidade é uma temática que envolve múltiplas dimensões da sociedade e que exige respostas articuladas nas áreas da saúde, educação e estilos de vida. A sessão de abertura contou também com a intervenção de Luís Pedro Rato, coordenador do projeto LAVida, que destacou a importância da investigação interdisciplinar no aprofundamento do conhecimento sobre os determinantes biológicos e ambientais da obesidade.
Ao longo da tarde realizaram-se diversas sessões temáticas dedicadas às dimensões clínica, comportamental e ambiental da obesidade. Na sessão dedicada à perspetiva clínica e farmacológica, Irene Cortes Verdasca, docente da Universidade de Évora e Médica de Medicina Interna no Hospital da Misericórdia de Évora e Rede Hospital da Luz, abordou a obesidade como um fenómeno emergente e multifatorial, salientando que esta é atualmente reconhecida como uma doença crónica complexa. A especialista destacou que fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais contribuem para o seu desenvolvimento, sublinhando ainda que a abordagem terapêutica deve centrar-se não apenas na perda de peso, mas também na prevenção de complicações associadas e na melhoria da qualidade de vida dos doentes.
Durante a sua intervenção, Irene Cortes Verdasca chamou ainda a atenção para as diversas barreiras que persistem na abordagem clínica da obesidade. Entre estas, destacou a forma como muitos doentes tendem a encarar a obesidade como uma condição exclusivamente auto-modificável e da sua inteira responsabilidade, o que contribui para a subvalorização da sua natureza enquanto doença crónica complexa. Paralelamente, referiu também desafios ao nível dos profissionais de saúde, nomeadamente na formulação de um diagnóstico formal de obesidade e na perceção, por vezes limitada, da eficácia de determinadas opções terapêuticas, como os medicamentos anti-obesidade. Estas barreiras, sublinhou, reforçam a necessidade de uma maior literacia em saúde e de uma abordagem clínica mais integrada e informada.
Ainda nesta sessão, Raquel Calado, da Unidade Regional de Farmacovigilância do Centro e Norte Alentejano, apresentou uma intervenção dedicada à gestão do risco de medicamentos agonistas do recetor da GLP-1, abordando o papel da farmacovigilância na monitorização da segurança dos medicamentos e sublinhando a importância da notificação de reações adversas para garantir a proteção da saúde pública.
A sessão dedicada à perspetiva comportamental integrou várias comunicações focadas na promoção de estilos de vida saudáveis. Cláudia Mendes, docente do Departamento de Enfermagem da UÉVORA, apresentou os resultados relacionados com os efeitos do exercício físico na sarcopenia após cirurgia bariátrica, destacando a importância de programas de exercício físico de precisão adaptados a esta população. Por sua vez, Hugo Rosado, técnico do CHRC-UÉVORA, deu a conhecer o projeto “PES em Movimento”, uma iniciativa de promoção da saúde dirigida a crianças do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, que procura incentivar a prática de atividade física e hábitos de vida saudáveis, com especial enfoque em crianças com excesso de peso ou obesidade.
Nesta sessão, Elsa Lamy, investigadora do Instituto para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED) da Universidade de Évora, apresentou uma reflexão sobre o papel das características sensoriais dos alimentos e da perceção individual do sabor na relação com a alimentação. A investigadora apresentou estudos que exploram a relação entre saliva, perceção sensorial e obesidade, evidenciando como fatores biológicos e comportamentais influenciam as escolhas alimentares. Na ocasião, foi também apresentado, entre outros, o projeto europeu HealthyW8, que procura desenvolver uma abordagem inovadora e personalizada para a prevenção da obesidade, integrando múltiplos fatores do estilo de vida e recorrendo a tecnologias avançadas como modelos de “gémeo digital humano”.
Na sessão dedicada à perspetiva ambiental, moderada por Ramiro Pastorinho, foram apresentadas duas comunicações focadas na relação entre ambiente e obesidade. Ana Catarina Sousa, docente Departamento de Ciências Médicas e da Saúde, abordou o tema “Obesogénios: Como os contaminantes ambientais estão a redefinir a compreensão da obesidade”, explorando o papel de substâncias químicas presentes no ambiente que podem interferir com o metabolismo e contribuir para o desenvolvimento desta condição. Já Luís Pedro Rato, também docente Departamento de Ciências Médicas e da Saúde, apresentou o projeto de investigação LAVida, dedicado ao estudo da lavândula como fonte de compostos bioativos com potencial aplicação na prevenção e no combate à obesidade.
A forte participação registada ao longo da iniciativa refletiu o crescente interesse da comunidade académica e científica na promoção de conhecimento e na procura de soluções inovadoras para este importante problema de saúde pública.
A iniciativa foi organizada pela Escola de Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade de Évora, através do Departamento de Ciências Médicas e da Saúde, contando com a coordenação científica de Ana Catarina Sousa, Cátia Sousa e Luís Pedro Rato. A jornada integrou igualmente o contributo da Câmara Municipal de Évora e do projeto de investigação LAVida – A lavândula como fonte de compostos bioativos no combate à obesidade, financiado por fundos nacionais através da Fundação “la Caixa”, em colaboração com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia e com o Banco Português de Investimento, reforçando a ligação entre investigação científica, inovação e saúde pública.
