Universidade de Évora atribui Prémio Vergílio Ferreira 2026 a José Luís Peixoto em cerimónia solene no Colégio do Espírito Santo

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A Universidade de Évora atribuiu, no passado dia 2 de março, o Prémio Vergílio Ferreira 2026 a José Luís Peixoto, um dos mais destacados autores da literatura portuguesa contemporânea. A cerimónia solene decorreu na Sala dos Docentes do Colégio do Espírito Santo, num momento particularmente simbólico, celebrado um dia após a data que assinala o 33.º aniversário do falecimento de Vergílio Ferreira, escritor que dá nome à distinção criada pela UÉVORA em 1997.

Na sessão, apresentada por Luís Matias, da DianaFM, Ana Telles, Vice-Reitora para a Cultura e Comunidade da Universidade de Évora, em representação da Reitora da instituição, sublinhou a relevância da iniciativa, considerando tratar-se de “uma iniciativa de um enorme relevo cultural não só da nossa instituição, mas da região e até do país”. Destacando a dimensão plural da língua portuguesa, afirmou ainda que “a pluralidade das vozes em língua portuguesa que são homenageadas é inesgotável”. Numa reflexão sobre o território e o papel transformador das artes, acrescentou: “Todos os homenageados deste prémio e toda a criação artística que se faz nesta cidade de Évora e neste território mostram que a riqueza cultural é imensa perante uma região que é considerada a mais pobre do país”.

Antonio Sáez Delgado, Presidente do Júri do Prémio Vergílio Ferreira 2026, salientou que “o prestígio deste prémio literário é construído pelo mérito dos galardoados, mas também pelas personalidades que constituem o júri de avaliação, que integrou Cristina Cordeiro (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Giorgio de Marchis (Università Roma Tre), Carla de Castro (Universidade de Évora) e o crítico literário Frederico Pedreira”. Na fundamentação da escolha, afirmou que “com o Prémio Vergílio Ferreira 2026 entregue a José Luís Peixoto homenageamos alguém que elevou o nome de Portugal e do Alentejo a tantos lugares do mundo, num ato de extrema generosidade”, destacando como traço distintivo do autor “o seu estilo próprio, que é possível identificar apenas numa página”. Numa intervenção marcada por uma forte defesa do papel da universidade e da cultura, declarou: “A literatura não salva a vida, mas pode dar-lhe um sentido. Assistimos, mudos, a uma banalização total da cultura e a uma infantilização da sociedade; a universidade deve ser uma voz de resistência. Hoje defendo a cultura material, reivindico o livro e a palavra que tanto constroem a nossa memória.”

A apresentação do escritor esteve a cargo de Carla Castro, docente do Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora, que se referiu ao autor como o “atual guardião do Prémio Vergílio Ferreira”. “José Luís Peixoto é o homem que saiu do Alentejo, mas, num ato de resistência literária, nunca deixou que o Alentejo saísse de si”, afirmou, acrescentando que o escritor “não escreve apenas sobre o Alentejo; escreve sobre a memória, os silêncios, a identidade — e estas são as pátrias comuns entre todos nós”. Sublinhou ainda que, com esta distinção, se reconhece “não uma obra individual, mas um percurso literário consistente”, que levou “a nossa língua mar adentro, entregando-a a leitores que não a sabem, mas que a sentem”.

Na sua intervenção, José Luís Peixoto evocou a sua ligação afetiva à cidade de Évora, recordando um episódio da juventude: “Um dia perguntei à minha avó se já tinha ido à Capela dos Ossos. Estávamos sentados num banco do Jardim Público de Évora enquanto esperávamos pelo meu pai. Nunca tinha ouvido falar dessa capela de nome insólito.” Recordando a visita, acrescentou: “Lembro-me de como a minha avó ficou impressionada com essa visita e ainda hoje sinto orgulho por, naquela altura, ter mostrado aquele lugar à minha avó, que já tinha 80 anos.” Numa reflexão sobre a escrita e a memória, afirmou: “As palavras refletem os que estão e os que estiveram. A literatura é uma forma de honrar o passado. Filhos e escritores são continuadores.” Concluiu, emocionado: “É uma honra fazer parte desta história e desta herança. Tenho muito orgulho de, a partir de agora, ter o nome de Vergílio Ferreira junto ao meu nas notas biográficas.”

A cerimónia integrou ainda a leitura de textos do autor por Eduardo Freitas e Lara Raimundo, estudantes do Departamento de Artes Cénicas da Escola de Artes, sob coordenação de Marcos dos Santos, bem como momentos musicais protagonizados por José Carlos Rico, pelo duo Diogo Martins (clarinete) e Carlota Tiago (marimba), alunos do Departamento de Música da Escola de Artes, e pelo grupo de cantares alentejanos “Era Uma Vez… o Cante!”, de Vendas Novas.

Ao distinguir José Luís Peixoto, a Universidade de Évora honra o legado de Vergílio Ferreira e reforça a centralidade da palavra literária como instrumento de consciência, identidade e projeção da língua portuguesa no mundo.

Publicado em 03.03.2026