Laboratório HERCULES da UÉVORA: Investigação interdisciplinar que une arte, história e ciência na valorização e preservação do património
Infraestrutura única em Portugal e de referência internacional, o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora integra ciência e humanidades na investigação, conservação e valorização do património cultural. Reconhecido como um exemplo de integração entre investigação fundamental e aplicada, com impacto direto na conservação, restauro e valorização do património cultural, esta unidade de investigação da Universidade de Évora alia o rigor das ciências exatas à sensibilidade das artes e humanidades.
O Laboratório HERCULES — Heritage, Évora, Research, Conservation Laboratory for the Environment and Sustainability — é uma das mais avançadas infraestruturas de investigação da Universidade de Évora, criada em 2009 com o objetivo de integrar metodologias das ciências físicas e dos materiais em abordagens interdisciplinares dedicadas ao estudo, conservação e valorização do património cultural. Sediado no Palácio Vimioso, em Évora, o HERCULES tem vindo a afirmar-se como um centro de excelência científica e tecnológica, conjugando investigação laboratorial de ponta com o conhecimento histórico e artístico.
António Candeias, Diretor do Laboratório HERCULES e coordenador da linha de investigação “Ciência para a Conservação do Património”, sublinha que o trabalho desenvolvido “mostra como arte, história e ciência se podem conjugar para valorizar o património”. O investigador destaca ainda a natureza interdisciplinar que define o laboratório: “No Laboratório HERCULES temos uma equipa multidisciplinar, com investigadores que trabalham em áreas tão diversas como a Arqueologia, Bioquímica, Biologia, Geologia e Ciência dos Materiais, e no cruzamento destas áreas trabalhamos em prol da valorização da nossa memória histórica”. A singularidade do HERCULES, acrescenta, reside precisamente nesta confluência entre ciências e humanidades. “É um laboratório único em Portugal e raro a nível internacional, porque num mesmo espaço conseguimos congregar uma infraestrutura analítica e investigação científica de ponta com um forte contexto das humanidades.”
Entre as principais linhas de investigação desenvolvidas no HERCULES, destaca-se a “Abordagem arqueométrica às culturas passadas”, coordenada por José Mirão, Vice-Diretor do laboratório. O investigador explica que “o que estudamos são fundamentalmente materiais arqueológicos como testemunho de sociedades do passado. Conseguimos saber a proveniência dos materiais e entender o modo de vivência de determinada sociedade, utilizando, para tal, um conjunto de ferramentas sofisticadas.” O impacto desta investigação é, segundo o responsável, “muito concreto: evitar intervenções desnecessárias e incompatíveis com o objeto em estudo, com vista a prolongar a vida do bem patrimonial”.
Outra vertente essencial do HERCULES é a linha “Novos materiais e soluções para o património cultural”, coordenada por Ana Teresa Caldeira, que explica: “Temos câmaras de envelhecimento para simular alterações de temperatura, humidade e poluição. No fundo, submetemos os materiais a uma série de testes antes de poder utilizar as soluções criadas diretamente nos objetos patrimoniais”. Um dos exemplos mais emblemáticos do trabalho desenvolvido pelo HERCULES é a investigação em curso na Gruta do Escoural, no Alentejo — classificada como Monumento Nacional desde 1963 e local onde foram identificados os primeiros vestígios de arte rupestre paleolítica em Portugal. A investigação aí desenvolvida recorre às mais avançadas técnicas do Laboratório para analisar o ADN dos micro-organismos existentes, incluindo bactérias e fungos, procurando possíveis aplicações biotecnológicas. Como explica Ana Teresa Caldeira, “é o exemplo de um ambiente hipogénico pouco explorado pelo Homem e no qual se pode encontrar um conjunto de microorganismos com potencialidade para biomineralização”, com relevância não apenas patrimonial, mas também médica e ambiental.
Na intersecção entre ciência e arte, a linha de investigação “Ciência para as Artes”, coordenada por Cristina Dias, centra-se no estudo material das obras de arte. “Fazemos o estudo material de uma obra de arte que contém informação sobre a sua produção, os materiais que foram usados, as técnicas artísticas aplicadas e sobre a forma como esta se comportou ao longo do tempo e o seu estado de restauro e conservação”, refere a investigadora. “Aqui, a inovação encontra-se na forma como o fazemos — nas técnicas analíticas avançadas que nos dão respostas sobre a obra de arte”. Segundo Cristina Dias, “uma obra de arte não é caracterizada apenas pelo estilo do seu autor. Por exemplo, como identificamos uma obra de Van Gogh sem ser apenas pelo seu estilo? Importa avaliar a técnica artística, os materiais utilizados, perceber de que forma foram aplicados... aí entra o Laboratório HERCULES e o nosso conhecimento, para ajudar a conhecer a obra de arte do ponto de vista material do artista.”
A infraestrutura do HERCULES compreende cerca de 300 m² de laboratórios analíticos, incluindo o Laboratório de Microscopia e Microanálise, o Laboratório de Espectrometria de Massa, o Laboratório de Cromatografia, o Laboratório de Caracterização de Materiais e o Laboratório de Biodegradação e Biotecnologia. Dispõe ainda do HERCULES Mobile, uma unidade móvel equipada para realizar análises in situ de artefactos e património construído, permitindo intervenções não destrutivas no local.O Laboratório está equipado com tecnologia de última geração, entre a qual se destacam um microscópio eletrónico de varrimento de pressão variável acoplado a um espectrómetro de raios X, um microdifractómetro de raios X, cromatógrafos de gás e líquido com espectrometria de massa e um espectrómetro de massa de razão isotópica — instrumentos que tornam o HERCULES único entre as infraestruturas portuguesas e uma das mais completas da Europa no domínio da análise de materiais culturais.
Desde a sua criação, o Laboratório tem desenvolvido projetos de relevância nacional e internacional, como o estudo comparativo entre iluminuras das coleções da Biblioteca do Vaticano e do Mosteiro de Alcobaça — uma investigação inédita que ilustra a confiança científica e a projeção internacional alcançadas pela equipa.
Único no seu género em Portugal e raro na Europa, o Laboratório HERCULES representa o ponto de encontro entre ciência, arte e história, capaz de transformar o conhecimento sobre o património cultural em soluções concretas para a sua preservação. A excelência da sua investigação e a inovação tecnológica desenvolvida no HERCULES projetam a Universidade de Évora no panorama internacional como um centro de referência na conservação e valorização do património, com impacto científico, cultural e social duradouro.
