MALAGUEIRA.PT: O projeto inovador da UÉvora que protege e reconhece uma das obras de Siza Vieira
Desenhado e projetado por Álvaro Siza Vieira em 1977, primeiro arquiteto do país a receber um Prémio Pritzker e reconhecido com o grau de Doutor Honoris Causa da Universidade de Évora (2015), o Bairro da Malagueira, comunidade suburbana na periferia de Évora, tem sido objeto de estudo de uma equipa de investigação do Centro de História de Arte e Investigação Artística (CHAIA), liderada por Pedro Guilherme e Sofia Salema, docentes do Departamento de Arquitetura da UÉvora.
O Projeto MALAGUEIRA.PT ou “Malagueira para Todos” surgiu da necessidade de identificar, reconhecer e sistematizar os valores de autenticidade, integridade, singularidade e o valor universal da obra de Álvaro Siza Vieira, particularmente, deste projeto único do arquiteto português no qual a componente arquitetónica se enquadra em pressupostos ideológicos, com vista à nomeação da obra para a Lista Indicativa Nacional à UNESCO para inscrição como Património Mundial.
“Este projeto de investigação procura colmatar a falta de informação sobre a obra e integrar o seu valor, dando-o a conhecer aos cidadãos para que eles próprios valorizem o espaço onde habitam”, explica Pedro Guilherme, Investigador Responsável do projeto. Para Sofia Salema, co-Investigadora Responsável do projeto, “reverter a ideia de que o bairro da Malagueira era uma construção de habitação social foi a grande mais valia do projeto. O mesmo já era reconhecido internacionalmente, mas é com muita alegria que o projeto teve esse impacto localmente”.
No decorrer do projeto, destaca-se o vasto leque de métodos de investigação aplicado, que incluiu recolha de dados através de entrevistas a pessoas chave para o projeto, entre as quais antigos habitantes do bairro ou até o próprio Siza Vieira, investigação documental, processos de simulação 3D e representação virtual que permitem ao visitante explorar de forma imersiva e interativa a Malagueira ainda não construída, bem como o estudo dos cadernos de desenho de Siza Vieira. “São cerca de 70 cadernos de desenho relativos ao projeto do bairro da Malagueira. Falamos de inúmeras formas de interpretação que permitem documentar o processo criativo do arquiteto, aliás, foi na Malagueira que Siza Vieira iniciou de forma sistemática o registo em desenho do espaço”, destaca Sofia Salema, docente e investigadora da UÉvora. “Através de uma representação tridimensional do real e da simulação do que falta ser construído, tratamos o Bairro da Malagueira como um «laboratório habitacional», na medida em que a habitação é a base da nossa família e da memória, o local onde crescemos. Este laboratório do habitante, esse saber habitar, a domesticidade e o viver individualmente e em coletivo, permitiu identificar os elementos de excecionalidade da obra, a integridade do conjunto, bem como toda a capacidade do projeto através do seu acervo documental”, acrescenta ainda Pedro Guilherme, docente e investigador da UÉvora.
A conceção do próprio bairro da Malagueira foi inovadora, num projeto participado que envolveu a participação dos futuros moradores que opinaram sobre questões práticas como a altura dos muros. Álvaro Siza Vieira projetou um bairro com 1.200 habitações uni-familiares em banda, em 27 hectares, com mais de 1/3 de coberto verde e um lago, bem como casas evolutivas para satisfazer as necessidades de crescimento do agregado familiar. Quando o desenhou em 1977, foi para “ser vivido, preservando a sua estrutura”, como relata Sofia Salema, e nele incluiu uma casa para si próprio. “A casa de Siza Vieira é um caso interessante pois foi a única casa desenhada por Siza Vieira para si próprio e serviu para que o próprio pudesse estudar e propor determinados aspetos construtivos para as cooperativas de habitação. Havia desconhecimento sobre algumas técnicas de construção e que ele utilizou na sua casa como uma espécie de laboratório para testar possibilidades e tentar demonstrar através da sua própria casa como essas técnicas resultam e são úteis”, salientou Pedro Guilherme. “A flexibilidade tipológica e evolutiva da habitação é extraordinária. Outro aspeto que valorizo é a forma como o Siza desenhou o bairro com respeito pela sua tipografia, a relação com os bairros já existentes, com a questão da estrutura ecológica”, acrescenta ainda Sofia Salema.
Para além do contributo do projeto MALAGUEIRA.PT para a importância do envolvimento da comunidade nos processos de manutenção e preservação do seu espaço, “o legado do projeto é o conhecimento científico partilhado e as linhas de investigação futura”, afirma Sofia Salema. Para Pedro Guilherme, destaca-se a participação de estudantes no processo de investigação, sendo “muito positivo para um estudante de mestrado em Arquitetura ter a oportunidade de integrar equipas de investigação logo durante o seu percurso académico, encontrar formas de olhar e potenciar novas visões de um mesmo objeto”.
Conheça este projeto transversal que preserva e valoriza uma das obras do representante da arquitetura modernista em Portugal, aqui.
