Caleidoscópio Florbela apresentado na UÉ

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“Este livro não quer ser mais que um inventário da fortuna crítica de Florbela Espanca, desde os primeiros comentários acerca da sua obra, no princípio do século passado, até, pelo menos, os anos noventa do mesmo século”, assumem as primeiras linhas do Pórtico da obra “Caleidoscópio Florbela” de Maria Lúcia Dal Farra, professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Sergipe, Brasil, autora que tem publicados inúmeros estudos de Literatura Portuguesa, Brasileira e Comparada (sobre poesia e narrativa), bem como um elenco de obras sobre Florbela Espanca.

 

 

Foi, portanto, com entusiasmo que a sala de Docentes do Colégio do Espírito Santo, da Universidade de Évora, recebeu ontem, dia 18 de janeiro, a sessão pública de apresentação da obra dedicada à escritora calipolense, Florbela Espanca, batizada com o nome de Flor Bela Lobo, onde, durante a sua curta vida – recorde-se que a escritora morreu aos 36 anos, em 8 de dezembro de 1930, na cidade de Matosinhos - escreveu poesia, contos, um diário e epístolas, “uma vedeta desde criança que soube metabolizar em arte as suas experiências pessoais, vedeta também depois da sua morte” recordou Ana Luísa Vilela, professora do Departamento de Linguística e Literatura da Universidade de Évora a quem coube a apresentação deste volume com edição da Universidade de Évora.

“É uma homenagem à escrita no feminino de duas gerações, a da poetisa (referindo-se a Florbela Espanca), e obviamente à geração da autora (referindo-se a Maria Lúcia Dal Farra), aludiu Hermínia Vasconcelos Vilar, Reitora da Universidade de Évora na intervenção de boas-vindas.  Hoje, lembrou a reitora, “homenageamos uma poetisa alentejana que morreu precocemente e cuja obra não só ultrapassou as fronteiras do país que a viu nascer, mas que marca o que é a nossa identidade enquanto país e, de forma indelével, a nossa cultura”.

As mais de oitocentas páginas desta obra “apresentam uma dedicação literária de Maria Lúcia Dal Farra à escritora portuguesa num trabalho de grande dimensão e de grande aprofundamento do conhecimento, uma obra ímpar de que a Universidade se orgulha de se associar” referiu ainda Hermínia Vasconcelos Vilar, recordando que a academia eborense encontra-se a assinalar a refundação da Universidade de Évora, visto que em 1973, por decreto do então ministro da Educação, José Veiga Simão, foi criado o Instituto Universitário de Évora, que viria a ser extinto em 1979, para dar lugar à nova Universidade de Évora.

“Portanto, este momento é também a comemoração da cultura e da capacidade de produzir cultura nos seus mais diversos aspetos, porque publicar uma obra com este perfil é homenagear a cultura” considerou a reitora, acrescentando “homenageamos dois vultos que se interligam em termos familiares, Florbela Espanca e Túlio Espanca, referências para o espaço onde nós nos encontramos mas também para o país e para a cultura portuguesa”, assumiu, cujas personalidades e importância “marcaram a memória cultural, histórica e literária de Évora e de todo o espaço do Alentejo”.

Numa apresentação fulgurante da obra, Ana Luísa Vilela, considera que o percurso historiográfico, bibliográfico, interpretativo (…) que este livro nos oferece “é uma viagem intemporal” sobre a vida e a obra da escritora calipolense “sobejamente construído por uma das mais importantes especialistas de literatura contemporânea, a melhor especialista da obra de Florbela Espanca e também uma benemérita amiga da Universidade de Évora” referindo-se, naturalmente, a Maria Lúcia Dal Farra, cuja intervenção manifestou satisfação por se encontrar reunida com estudantes e admiradores da obra de Florbela Espanca de quem leu três poemas, um deles dedicado a Évora, intitulado “Poema sobre Évora”, que também nós aqui pretendemos partilhar

“Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me almoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ...”

Publicado em 19.01.2024