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Ciência na Biblioteca: Know.Africa: Redes de conhecimento na África oitocentista - Uma abordagem das humanidades digitais dos encontros coloniais e do conhecimento local nas narrativas de expedições portuguesas (1853-1888)

Em 11.03.2026
17:00 | Biblioteca Pública de Évora
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É fácil pensar a África Oitocentista como um espaço colonial disputado por potências europeias com as suas agendas políticas, económicas e científicas. Além disto, a historiografia de eventos como a Corrida a África por vezes reforça a ideia de um continente impotente particionado por estados imperiais.

Se, por um lado, não podemos negar a força e a arbitrariedade da violência colonial, por outro, a História há muito desconsiderou as formas como os povos africanos resistiram.

Este viés eurocêntrico é notável na História das Ciências que frequentemente associou às expedições científicas em África uma imagem idealizada que realça ideais de coragem, aventura e pioneirismo. Ainda hoje é possível encontrar os resultados alcançados pelos naturalistas descritos como descobertas realizadas por indivíduos extraordinários.

Apenas recentemente a pesquisa académica começou a se distanciar desta compreensão ao reavaliar as narrativas escritas pelos viajantes e perceber que a ciência praticada em campo no século XIX era profundamente colaborativa.

Em campo, os naturalistas dependiam de redes de indivíduos que contribuíam com atividades como a navegação por rios, a movimentação pelas florestas, a procura por abrigos, a comunicação com a população local e com o trabalho científico de coleta, identificação e preparação de espécimes.

Nesta pesquisa, analisaremos quatro expedições portuguesas a África enfocando a sociabilidade do trabalho de campo para revelar como grupos nativos auxiliaram os viajantes, especialmente na coleta de espécimes. Ao investigar como os agentes locais contribuíram para o sucesso alcançado pelos viajantes, pretendemos revelar que, apesar das assimetrias sociais no espaço colonial, grupos nativos participaram ativamente no processo europeu de conhecimento da natureza africana. Com isto, desmistificaremos a ideia do viajante heroico e solitário inserindo os naturalistas em processos sociais e históricos mais amplos, investigando como o conhecimento circulava entre império e colônia, compreendendo como as relações sociais eram formadas em campo e em que momentos os viajantes dependiam do apoio de redes locais. Além disto, também pretendemos lançar luz sobre os processos de formação das coleções e refletir sobre o papel destes agentes locais na formação do património científico europeu.