Projeto LER identifica impacto do contexto familiar no sucesso da leitura

Ilustração do item

O Projeto LER, que visa responder ao declínio do desempenho em leitura em Portugal, através de uma intervenção estratégica no ensino inicial e pré-escolar, assente na avaliação precoce, na formação docente especializada e na utilização de recursos pedagógicos de elevada qualidade, foi recentemente apresentado no Auditório da Escola Básica Manuel Ferreira Patrício, em Évora, por Isabel Leite, professora de Psicologia da Universidade de Évora (UÉ) e coordenadora do projeto. 

À margem da apresentação, Isabel Leite explicou que o projeto LER começou em 2020 através de uma plataforma, sendo coordenado pela Universidade, com financiamento da Fundação Belmiro de Azevedo. Segundo a coordenadora do estudo, que é também membro do Conselho Consultivo do EDULOG, o think tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, a investigação surgiu da preocupação com “a quebra muito significativa do desempenho na leitura” observada nos estudos internacionais realizados com crianças de 9 e 10 anos e jovens de 15 anos. “Aquilo que a literatura científica nos mostra é que é muito difícil recuperar dificuldades de aprendizagem da leitura em anos mais tardios”, explicou, sublinhando que a intervenção precoce é “muito mais eficaz” e menos dispendiosa para as famílias e para o sistema educativo.

 

A investigação incidiu sobre a preparação das crianças no pré-escolar e sobre a aprendizagem inicial da leitura e da escrita no primeiro e segundo anos de escolaridade, fases que, segundo Isabel Leite, “é aí que tudo se joga”. Portanto, nesta segunda fase do projeto LER, realizámos um  estudo que envolveu 184 escolas, a nível nacional e cerca de 6500 crianças, das quais mais de 3000 foram acompanhadas ao longo de diferentes momentos de avaliação, no início, meio e final do ano letivo. “E estamos a acompanhá-las também este ano, portanto, serão acompanhadas ao longo de dois anos letivos”, revelou a coordenadora.

 

Entre os principais resultados, o estudo identificou, segundo Isabel Leite, uma “progressão lenta” na aprendizagem inicial da leitura, com muitas crianças “aquém” das expectativas de desempenho, tendo em conta os referenciais de outros países. “Cerca de 50% das crianças avaliadas não leem mais do que 39 palavras por minuto e 25% não ultrapassam as 21 palavras por minuto”, revelou Isabel Leite.

 

“Detectámos uma grande heterogeneidade nas competências linguísticas e cognitivas com que as crianças chegam ao primeiro ano de escolaridade”, referiu, explicando que “as diferenças começam muito cedo”.

 

O estudo conclui que as diferenças de desempenho estão fortemente relacionadas com o estatuto socioeconómico das famílias.  “O desenvolvimento linguístico e a capacidade de aprendizagem com que as crianças iniciam o seu percurso escolar apresentam diferenças muito grandes em função do estatuto socioeconómico das famílias”, afiança Isabel Leite.  “Por exemplo, quando fomos olhar para o desempenho de escolas públicas e escolas privadas, as duas faces do sistema, as escolas privadas tiveram melhores desempenhos do ponto de vista global, mas quando entramos em consideração com a composição da sua população escolar, ou seja, o background cultural das famílias, as diferenças desaparecem”, exemplificou. “O que mostra que, basicamente, continua a ser o efeito família a explicar grande parte desta progressão e destas grandes disparidades que nós encontramos no desempenho dos alunos”.

 

Além da análise dos resultados escolares, do ponto de vista científico o projeto comparou avaliações feitas por professores e educadores com avaliações realizadas por assistentes de investigação, permitindo identificar “áreas em que a formação docente pode ser reforçada para detectar mais precocemente dificuldades de aprendizagem”, explicou a coordenadora.

 

Isabel Leite defendeu ainda que o conhecimento produzido deve ser devolvido às escolas e aos professores para apoiar a tomada de decisão pedagógica. 

 

Na apresentação do Projeto LER, Isabel Leite sublinhou as recomendações do estudo realizado que passam por maior estímulo à consciência fonológica no pré-escolar; reforço da leitura regular em casa; maior contacto com livros e histórias desde cedo; e envolvimento das famílias no processo de aprendizagem.

 

O Projeto LER deixa ainda recomendações dirigidas às políticas públicas, procurando contribuir para estratégias de combate às desigualdades educativas desde os primeiros anos de escolaridade.

 

Esta sessão de apresentação do Projeto LER, realizada em Évora, integrou o ciclo de palestras “Psicologia Sem Fronteiras”, promovido pelo Serviço de Extensão de Psicologia à Comunidade da UÉ (SEC-Psi). Este ciclo tem como objetivo “dar a conhecer divulgar junto da comunidade os trabalhos de investigação que os docentes da UÉ têm vindo a desenvolver no domínio da Psicologia, bem como promover o diálogo entre investigação e prática”, conforme explicou na sessão Luísa Grácio, do Departamento de Psicologia da UÉ. 

Publicado em 13.08.2026