Professor Feliz Minhós profere a sua Última Lição
No dia 27 de março, na sala 124 do Colégio do Espírito Santo da Universidade de Évora, realizou-se a “Última Lição” do Professor Catedrático Feliz Manuel Minhós, organizada pela Direção do Departamento de Matemática desta Universidade.
“Última lição, eventualmente…” foi o título escolhido por Feliz Manuel Minhós para a sua despedida da academia, tendo partilhado o desejo que “esta última lição provavelmente será a primeira de uma nova fase e espero que haja mais oportunidades de ensinar, se a saúde o permitir”.
Na lição, que se seguiu à Mesa de Honra, o Docente, que dedicou 37 anos da sua vida à Universidade de Évora, explicou que o que o atraiu foram “os problemas com valores na fronteira”. “Não há dependência contínua dos valores dados na fronteira”, explicou, acrescentando que “mudando as condições de fronteira, o problema e a solução mudam. Por isso, temos que ser criativos”. Partilhou, ainda, que nos seus artigos procurou sempre explicar que “a Matemática pura e a Matemática aplicada não existem uma sem a outra e influenciam-se mutuamente”.
O agora Professor Jubilado publicou mais de 100 artigos em revistas especializadas e trabalhou com 70 colaboradores em coautorias de trabalhos científicos.
À margem da “Última Lição”, desafiado a resumir a sua carreira de docente e investigador, o Professor partilhou que “sou docente e matemático por acaso”, tendo explicado que “as decisões de escolher o ensino e a matemática resultaram de situações fortuitas, ou seja, decisões que se tomam no dia-a-dia, sem serem planificadas, e que depois chegamos à conclusão que resultam e que são determinantes na vida da pessoa”.
“A lição que tiro da minha vida pessoal é que há que aproveitar as oportunidades que a vida nos dá e, aproveitando essas oportunidades, fazer o possível para singrar nelas”, referiu, afiançando: “Foi isso o que eu fiz. Nunca pensei em ser professor e matemático e calhou ser professor e ser matemático. Mas quando tomei estas opções, levei-as a fundo com muito trabalho, com muito interesse e com muita dedicação”. Durante a “Última Lição” ilustrou o porquê das escolhas do ensino e da matemática terem sido por acaso. Optou pelo ensino porque permitiu não ter que fazer o ano de serviço cívico que era obrigatório e que escolheu matemática porque era o curso que não tinha aulas práticas com frequência obrigatória.
Na sua “Última Lição”, Feliz Manuel Minhós apresentou algumas das descobertas científicas que fez, assim como algumas obras e teses nas quais participou e orientou, nunca esquecendo os alunos, tendo dado vários exemplos de antigos alunos de doutoramento e das teses desenvolvidas, que tiveram impactos em diversos setores da sociedade.
“O brilho nos olhos dos alunos é a maior riqueza que eu retiro e o maior prazer que tive na docência”
“Além de todo o trabalho desenvolvido, o que eu realço mais e o que me dá mais prazer em tudo é ver o brilho nos olhos dos alunos”, recordou, com o olhar emocionado. “Quando eles compreendem alguma coisa nova que nós queremos explicar, quando esclarecemos uma dúvida, algo que eles não percebiam e passam a perceber, algo que não gostavam e passam a gostar... esse brilho nos olhos dos alunos é a maior riqueza que eu retiro e o maior prazer que tive na docência”, desenvolveu.
“A Matemática e as descobertas científicas são algo muito fugaz. Quando chegamos ao resultado, dá-nos uma alegria tremenda e depois começamos a pensar - ‘então e se eu alterasse isto ou aquilo?’ - e começa tudo de novo. Portanto, em termos científicos há mais desilusão e procura, do que satisfação”, exemplificou, afiançando que “o brilho nos olhos dos alunos e o conhecimento que nós transmitimos aos alunos é a maior riqueza que eu recolhi de toda a minha vida e espero ainda poder recolher no futuro”.
O Legado: “O que fica para a história são os alunos”
Desafiado a partilhar o que gostaria que ficasse do seu trabalho, o Professor sublinhou que “as pessoas vão e a obra fica”.
“No plano pessoal, os filhos e os netos, são a prova que nós passamos por esta vida. Em termos profissionais e na Universidade o que fica para a história são os alunos”, dando o exemplo de alguns que marcaram presença na sessão. “E isso dá-me uma satisfação tremenda, porque significa que se criou uma relação de empatia e de amizade”, afirmou, recordando sobretudo “os alunos de doutoramento, com quem nós lidamos mais mano-a-mano, durante mais tempo e que nos marcam, porque nós também marcamos o futuro deles”.
“Portanto, o legado que fica é esta relação, este dar e receber, porque se recebe muito. Dá-se muito mas também se recebe muito”, garantiu com um brilho nos olhos, não esquecendo as obras, os artigos, os livros e sempre os alunos. “Tudo somado é a melhor marca do ponto de vista profissional que se pode deixar”, sintetizou.
Gostaria de ser lembrado como “uma pessoa sensata, que gosta de ensinar, que gosta dos alunos, que gosta de investigar e que procura as coisas boas da vida”
À questão de como é que gostaria de ser lembrado, Feliz Minhós respondeu que “gostaria de ser lembrado como uma pessoa sensata, que gosta de ensinar, que gosta dos alunos, que gosta de investigar e que procura as coisas boas da vida”.
“No caso concreto da matemática, procurei sempre mostrar que não é assim uma ciência tão complicada quanto isso. Não é um bicho de sete cabeças. Requer trabalho, requer dedicação, mas isso é a mesma coisa que o desporto ou a música”, acrescentou, exemplificando: “a pessoa para ser um bom músico ou um bom desportista tem que trabalhar bastante, tem que treinar bastante. E na matemática é igual, requer algum trabalho, é uma ciência estruturada, por vezes há ali um degrau que falha e há que recuperar”.
“Neste campo, gostaria de ser lembrado como alguém que transmitiu o gosto pela matemática a várias gerações, que teve influência, de certa maneira, no seu futuro, nomeadamente no caso dos alunos de doutoramento. Em suma, é essa a maneira mais agradável como eu gostava de ser lembrado”, concluiu com um sorriso sereno de dever cumprido.
A Universidade de Évora agradece reconhecida
Antes de iniciar a “Última Lição”, uma Mesa de Honra em representação da Universidade de Évora agradeceu reconhecidamente o trabalho do Professor Catedrático Feliz Manuel Minhós.
O Diretor do Departamento de Matemática da UÉ, Luís Miguel Grilo, começou por referir que “este é um momento com grande significado para o nosso Departamento. É também um privilégio poder, através desta cerimónia, homenagear o Professor Minhós, que saiu recentemente do Departamento”.
“Publicamente deixamos o nosso sincero agradecimento pela dedicação, o compromisso ao nível do ensino e da investigação durante uma carreira académica longa e notável. O professor Feliz Minhós desempenhou um papel fundamental na formação de gerações de estudantes, inspirou colegas, deixou uma marca relevante no domínio científico”, sublinhou o Diretor do Departamento de Matemática.
Já a Vice-Reitora para a Investigação, Inovação e Internacionalização, Maria João Costa, referiu, a título pessoal, “o gosto de estar nesta sessão de homenagem e certamente será uma lição muito interessante”, tendo desejado “muitas felicidades ao Professor Feliz Minhós. Desejo que seja uma nova etapa cheia de novos temas interessantes e novos horizontes que se abrem daqui para a frente”.
Em nome do IIFA - Instituto de Investigação e Formação Avançada, o seu diretor, Rui Salgado, agradeceu “ao Professor Feliz Minhós a carreira que teve ligada à investigação e à formação avançada”.
“Nos últimos quatro anos, tenho trabalhado mais de perto com o Professor Feliz e pude comprovar o seu rigor, a sua cordialidade e preocupação, tendo sido diretor do Centro de Investigação em Matemática e Aplicações (CIMA) e do Programa de Doutoramento”, destacou.
Por seu turno, o Diretor da Escola de Ciências e Tecnologia (ECT), Fernando Carapau, sublinhou que “hoje estamos aqui para homenagear não só o colega e amigo Feliz Minhós, mas também o seu percurso académico nas várias categorias da nossa profissão, nomeadamente o seu percurso como Assistente Estagiário, Assistente, Professor Auxiliar, Professor Associado e Professor Catedrático, enquanto membro do Departamento de Matemática, da Escola de Ciências e Tecnologia da UÉ”.
“O Professor Catedrático Feliz Minhós tem um percurso assinalável de 37 anos ao serviço da Instituição, ingressando na mesma no ano de 1989. Parece que foi ontem”, assinalou, destacando toda a sua atividade além da docência e investigação.
“Como colega, amigo e na qualidade de Diretor da Escola, é uma honra agradecer ao Professor Catedrático Feliz Minhós todo o seu profissionalismo e dedicação de 37 anos à Instituição. Por fim, desejo tudo de bom ao colega Feliz Minhós para esta nova etapa, que pretendemos que seja cheia de coisas boas, em particular com mais produção científica”, desejou o Diretor da ECT.
Por fim, a Professora Maria Clara Grácio, que acompanhou praticamente todo o percurso do homenageado, deixou o seu testemunho com um cunho mais pessoal.
“O percurso do Feliz é particularmente rico, muito mais, provavelmente, do que o percurso de todos nós que aqui estamos. Porque o percurso do Feliz começou no ensino primário, em 1979, passou pelo ciclo preparatório, pelo ensino secundário e, entretanto, é que passou ao ensino superior”, recordou, afiançando que “este percurso fez com que seja tão sólida a sua carreira académica e fez com que ele não tenha sido apenas um mero professor mas que tenha sido alguém que verdadeiramente ensinou”.
A colega de Departamento revelou que “convivemos durante tantos anos sem um mínimo atrito e sempre de forma cordial”. “O que guardo é o respeito mútuo e a cooperação”, sublinhou.
Recordando um episódio inédito e cheio de humor, a Professora revelou que um dia “eu estava no gabinete e recebo um telefonema: ‘posso falar com o professor Feliz?’ E eu digo: ‘Olhe, o professor Feliz não está. Mas quer deixar algum recado?’ ‘Sim, diga-lhe que ligou o Infeliz’. E eu pensei, está a gozar comigo… Mas na verdade, ele era aluno de Doutoramento e chamava-se, de facto, Infeliz. Passados uns anos, na prova pública do Doutoramento, deu-se ainda um caso mais engraçado em que estava o Professor Feliz, como orientador, estava o Infeliz como candidato. E quem é que secretariou? A D. Felicidade”. A gargalhada foi geral.
Por fim, Maria Clara Grácio destacou ainda o empenho ativo na Universidade e o empenho cívico do Professor homenageado, nomeadamente, no seu concelho natal, em Sousel, dado que é natural da vila de Cano, onde já desempenhou diversos cargos como, por exemplo, Presidente da Assembleia Municipal de Sousel.
“Caro Feliz, mostraste que ensinar e investigar é uma tarefa contínua, que começa muito antes da Universidade e continua verdadeiramente. E em meu nome, e obviamente em nome de todos os que aqui estão, fica um agradecimento sincero e profundo. E fica também o desejo que esta não seja a ‘última lição’. Isto é só uma mudança de ritmo porque quem ensinou e investigou toda a vida dificilmente deixa de o fazer. Portanto, muito obrigada, colega e amigo Feliz”, concluiu emocionada a Docente, o que gerou uma uníssona e justa salva de palmas.
Um percurso longo e notável
Licenciado em Ensino da Matemática, pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 1989, o Professor Catedrático Feliz Manuel Minhós concluiu, com distinção e louvor, o Doutoramento em Matemática pela Universidade de Évora, em 2002, com a dissertação "Métodos Topológicos e Variacionais em Problemas não Lineares com Valores na Fronteira".
Em 2010 obteve a Agregação em Matemática, com aprovação por unanimidade, na Universidade de Évora, com a especialização em Análise Matemática e Equações Diferenciais, com a tese “Topological and Variational Methods in Nonlinear Boundary Value Problems".
Desde 1989 integra, como investigador, o Centro de Investigação em Matemática e Aplicações da Universidade de Évora. Como docente do Ensino Superior, fez toda a sua carreira na Universidade de Évora, tendo sido Assistente de 1989 a 2002; Professor Auxiliar de 2002 a 2018; Professor Associado de 2018 a 2021; e Professor Catedrático desde 2021.
Da sua vasta atividade profissional, ao longo dos 37 anos de carreira, destacam-se os seguintes cargos desempenhados: Membro do Senado; Membro do Conselho Geral; Membro do Conselho Científico da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora; Membro do Conselho Científico do Instituto de Investigação e Formação Avançada da Universidade de Évora (IIFA); Diretor do Centro de Investigação em Matemática e Aplicações (CIMA); Diretor do Departamento de Matemática; Diretor de Curso; Orientador Científico para o Curso de Ensino em Matemática; Orientador Científico de vários trabalhos de fim de curso; Orientador Científico de várias teses de Mestrado; Orientador Científico de várias teses de Doutoramento; Diretor do Programa de Doutoramento em Matemática da Universidade de Évora; Presidente do Conselho do Departamento de Matemática da Universidade de Évora; e membro do Editorial Board na Universidade de Évora.
Na atualidade integra ainda o PRO.VITA II - Programa para a valorização, inovação e transferência de tecnologia no Alentejo - COMPETE2030-FEDER-01457500 / Portugal 2030 em curso até junho de 2027 e a TENURE UÉvora - Candidatura da Universidade de Évora à FCT TENURE, a decorrer até setembro de 2028.
Conheça mais sobre o Curriculum Vitae do Professor Catedrático Feliz Manuel Minhós aqui.
